Capítulos finais 7, 8 e 9 do livro “Filosofia da caixa preta” de Vilém Flusser

                                                 Universidade Federal de Minas Gerais

Arquitetura e Urbanismo




    As ideias que chamaram minha atenção nos capítulos 7, 8 e 9 do livro “Filosofia da caixa preta” de Vilém Flusser, envolvem o impacto da fotografia, tão democratizada, parecer ser algo que todos podem dominar, afinal, qualquer pessoa pode comprar uma câmera e começar a tirar fotos. Mas essa facilidade não quer dizer que todos saibam interpretar essas imagens de forma crítica. Isso cria uma falsa sensação de domínio visual, parecida com a ideia de saber ler, mas sem compreender de fato os textos. As pessoas, influenciadas pela indústria fotográfica, compram os aparelhos mais modernos e, sem perceber, se tornam parte deles, capturando fotos de maneira automática e repetitiva. A produção fácil e rápida de tantas imagens gera memórias artificiais, mais conectadas ao funcionamento das máquinas do que às nossas próprias experiências. O que deveria ser um ato mais reflexivo acaba se tornando um hábito repetido, quase como um ritual, onde deixamos de pensar criticamente sobre o que estamos vendo, enquanto as imagens, em vez de serem desmistificadas pelos textos, acabam dominando e reinterpretando a palavra, invertendo a relação histórica entre imagem e escrita. Com o tempo, esse universo fotográfico se tornou tão presente que já nem o notamos mais, especialmente porque estamos acostumados a ver novas imagens constantemente substituindo as antigas. Esse "progresso visual" a que estamos expostos muda a forma como enxergamos o mundo. Além disso, as cores vibrantes e vivas do nosso cotidiano são vistas com normalidade, o que é bem diferente das gerações passadas que viviam em um mundo mais monocromático. Toda essa realidade colorida e a programação embutida nas fotografias influenciam nosso comportamento de maneira quase mágica, como acontece com o sinal vermelho de um semáforo, que nos faz parar instintivamente. Esse fluxo de imagens funciona como um mosaico de informações, onde o pensamento humano é simplificado em pequenos dados processáveis, tornando nossa sociedade cada vez mais automatizada. Ironicamente, a fotografia, que nasceu para facilitar a vida humana, acabou aprisionando seus criadores, já que as máquinas agora nos manipulam e programam.  Por isso, surge a urgência de uma filosofia da fotografia, que questione essa definição atual, onde o homem é excluído como sujeito ativo. Ao mergulhar nos conceitos de imagem, aparelho, programa e informação, percebemos uma circularidade que se afasta das explicações tradicionais da história e nos coloca em uma era de pensamento pós-histórico, que aparece não só na fotografia, mas também em áreas como a cosmologia e a biologia. Esse contexto nos mostra que estamos pensando de maneira programada, influenciados pelos próprios modelos tecnológicos que criamos, como a fotografia, que molda nossa visão de mundo. Assim, a filosofia da fotografia não apenas busca questionar essa alienação, mas também reposicionar o debate sobre a liberdade, revelando como podemos, mesmo em um mundo automatizado, ainda encontrar espaço para exercê-la. Dessa forma, essa filosofia se torna uma reflexão necessária sobre o sentido da vida e talvez a última revolução possível em um mundo que parece cada vez mais determinado por máquinas.

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